Síndrome Miofascial

O que significa miofascial?
O termo miofascial é originário das palavras “mio ’’ que significa músculo, e “fáscia”, estrutura de tecido conjuntivo que envolve todas as estruturas do organismo humano de maneira tridimensional da cabeça aos pés, incluindo os ossos, músculos, nervos, vasos sanguíneos, enfim todos os órgãos, até o nível das células. Portanto, ele não é sinônimo da face embora a mesma possa estar também envolvida. Por esta razão as doenças que acometem estas estruturas podem se confundir com outras enfermidades dolorosas e comprometer diversos sistemas.

O que é síndrome miofascial (SMF)?
É um conjunto de sinais e sintomas que se caracterizam por apresentar dor localizada, aumento da sensibilidade muscular, e redução da amplitude dos movimentos. Estas manifestações são mais freqüentes na cabeça, pescoço, ombros, braços, pernas e região lombar e glúteas entre outras podendo acometer qualquer grupo muscular. Muitas vezes estão associadas a manifestações psicológicas como ansiedade e depressão. Apesar de dolorosa não apresenta risco de vida, porém pode prejudicar a qualidade de vida do individuo com impactos em seus familiares, ambiente de trabalho e sociedade. Quando tratada corretamente pode cessar, embora muitos relatam dor por longos períodos. A intensidade da dor pode variar durante o dia, e costuma se agravar com a atividade física e situações estressantes.

Qual é a freqüência da síndrome?
É a síndrome dolorosa mais freqüente na prática clínica. Não se sabe ao certo a sua prevalência, entretanto estudos epidemiológicos realizados em diferentes partes do mundo a colocam como a causa mais comum de dor músculo-esquelético crônica localizada. Em clínicas especializadas no tratamento da dor crônica esta presente em 85 % dos casos. Nos pacientes com dor de cabeça de origem no pescoço em 55,4 % dos casos. Esta doença muitas vezes não é identificada pelos profissionais da saúde e, muitas vezes ela é confundidas com a fibromialgia.

Como é diagnosticada?
Não existem testes laboratoriais ou exames de imagem específicos para o seu diagnóstico. Ele é essencialmente clínico. Portanto uma boa conversa com o paciente que inclui o seu histórico, antecedentes pessoais, familiares e psicológicos seguido do exame físico e do aparelho locomotor, incluindo a presença dos pontos-gatilho (PG) nos músculos, é o mais importante para o seu diagnostico. A palpação das articulações temporomandibulares e a inspeção da arcada dentária, pois, os dentes poderão apresentar redução de sua altura e com o aspecto de lixados, é necessária.

O que são os pontos de gatilho?
doenças reumáticas
São regiões sensíveis localizados nos músculos (ver figuras abaixo). Quando esses pontos são pressionados aplicando uma força normal os pacientes podem sentir dor no local ou em outras áreas do corpo, podendo ainda relatar sintomas como formigamento nas mãos, queimação e ardência, conhecidos como dor referida. Como exemplo: Ao pressionar um ponto de gatilho nos músculos do pescoço o paciente pode relatar dor atrás de seus olhos. Algumas vezes o paciente refere e sente nesse ou outro ponto a presença de um nódulo. O reumatologista deve reconhecer esta situação, para não haver confusão com outros diagnósticos. Como ilustração, podemos citar um paciente que tem dor no pescoço que se irradia para um membro superior ser interpretado como portador de uma hérnia de disco cervical, que eventualmente até poderá estar presente em um exame de imagem, porém não é o fator responsável pela dor. Um exame clínico minucioso certamente conduzirá ao diagnóstico correto desta síndrome.

Quais os fatores que podem ativar os pontos de gatilho?
Vários fatores foram relacionados, entre eles temos: trauma súbito do aparelho locomotor (músculos, ligamentos, tendões, bursas), lesão do disco vertebral, fadiga generalizada, exercícios excessivos acima do seu limite, movimentos repetitivos e estresse muscular, doenças em outros órgãos (o infarto do miocárdio, apendicite ou gastrite entre outros), sedentarismo, deficiências nutricionais, alterações hormonais e estresse psicológico.

O que causa esta síndrome miofascial?
Não se conhece atualmente a sua causa exata. Entretanto, ela pode ser devida a um conjunto de fatores isolados ou associados que inclui a má postura, pressão contínua sobre um músculo, estresse emocional, movimentos repetitivos e doenças articulares. Estes fatores podem levar o individuo a um ciclo vicioso com inatividade, incapacidade física, incluindo sofrimento físico e psicológico, gerando a memória da dor.

Quais os fatores perpetuantes mais comuns?
Na maioria das vezes os mesmos que desencadeiam os pontos de gatilho, entre eles: fatores mecânicos (esforços repetitivos ou acidentes), problemas anatômicos como assimetria de membros, alças de soutien muito apertadas e/ou que suportam mamas volumosas, exercícios musculares excessivos, distúrbios do sono e outras doenças associadas (climatério, desnutrição, hipotiroidismo entre outros).

Como a síndrome miofascial é tratada?
O tratamento da SMF é realizado por uma equipe multiprofissional liderada por um especialista médico que inclui medicamentos e outros métodos não farmacológicos. Para melhor resultado o paciente necessariamente devera ser conscientizado e participar do raciocínio clinico e planejamento terapêutico. A sua aderência ao tratamento é essencial. A identificação de sua causa e dos fatores desencadeantes e perpetuantes deve individualizada para cada caso. Isto se deve a natureza crônica e aos fatores físicos e psicológicos próprio de cada individuo. Na residência e no ambiente de trabalho os fatores ergonômicos e posturais devem ser analisados e corrigidos e, também os hábitos da rotina diária, no trabalho, modo de dormir, atividades de lazer e esporte, entre outros.

Os principais tratamentos e procedimentos seguem abaixo:

. Conscientização da necessidade de mudar o estilo de vida: aumentar a atividade física, de forma gradual sob a orientação e a supervisão de um profissional de saúde; abolir o tabagismo, moderar o consumo de bebidas alcoólicas e a base de cafeína. Caso contrário esses fatores podem agravar os sintomas;
. Técnicas de relaxamento: a redução do estresse emocional, através das técnicas de relaxamento é benéfica. Podem ser utilizados, yoga, meditação e outras;
. Obedecer às regras da postura: aprender e aplicar os princípios de postura correta e mecânica corporal pode ajudar a aliviar o estresse e a tensão nos músculos afetados;
. Infiltração nos pontos de gatilho, utilizando analgésico para aliviar a sua tensão;
. TENS – estimulação elétrica transcutânea: aplicação de uma pequena corrente de eletricidade no local para aliviar a tensão muscular e dor;
. Apoio psicológico: a terapia cognitiva comportamental tem se mostrado muito útil;
. Apoio odontológico: nos casos em que ocorre o bruxismo com o comprometimento da articulação temporomandibular (ATM) a utilização de uma placa entre os dentes pode aliviar os sintomas;
. Medicamentos: a prescrição de medicamentos para aliviar a dor, melhorando a qualidade de vida do paciente. Antiinflamatórios, relaxantes musculares analgésicos e antidepressivos são utilizados.

Qual a diferença entre SMF e fibromialgia?
Freqüentemente confundida com fibromialgia, pois, em muitas situações suas manifestações são comuns, entretanto são entidades distintas. Ambas fazem parte das síndromes de amplificação dolorosa. A fibromialgia apresenta dor difusa em múltiplos pontos dolorosos em locais pré-determinados do corpo (generalizada). Já a síndrome miofascial a dor é mais localizada e os seus pontos de gatilho quando pressionados não causam dor referida como os pontos dolorosos. As suas principais características diferenciais estão abaixo:

Característica: Dor – Fibromialgia: Difusa – SMF: Local
Característica: Fadiga – Fibromialgia: Comum – SMF: Incomum
Característica: Pontos Dolorosos – Fibromialgia: Presentes – SMF: Ausentes
Característica: Pontos de Gatilho – Fibromialgia: Ausentes – SMF: Presentes
Característica: Prognóstico com Tratamento – Fibromialgia: Crônica (em 80%) – SMF: Melhor

O que é disfunção da articulação temporomandibular (DTM) e qual a sua relação com SMF?
A disfunção temporomandibular, denominação genérica corresponde a um conjunto de anormalidades na articulação responsáveis por dores crônicas do tipo recorrente, não progressiva que se manifesta por dor localizada ao redor da orelha ou região que pode se irradiar para o pescoço, mandíbula e dentes leve ou moderada que é exacerbada pelo ato mastigatório. Esta dor é de origem muscular articular ou mista. Ela inclui vários subgrupos de dores músculo-esqueléticas relacionada à atividade mandibular, portanto, a denominação DTM engloba as condições dolorosas crônicas decorrentes dos músculos mastigatórios, das articulações temporomandibulares e das estruturas associadas. Na maioria das vezes o desarranjo interno é devido à sobre carga micro ou macrotraumática da articulação com o comprometimento da musculatura da circunvizinhas. Este conceito sugere que o diagnóstico em DTM deve englobar além dos aspectos físicos, emocionais, comportamentais e sociais dos pacientes. Entre as causas secundárias temos: má oclusão dentária, artrite reumatóide, artrose, deslocamento do disco presente na articulação. Porém a principal causa é a síndrome miofascial dos músculos mastigatórios. Esta ocorre devido a uso repetitivo e não persistente da musculatura envolvida. A maioria dos pacientes com DTM tem bruxismo noturno (ranger de dentes a noite) com relação com distúrbios da esfera psicogênica, que regra geral se acompanha de cefaléia e dor no pescoço.

Como administrar a síndrome miofascial?
Muitos pacientes com síndrome miofascial procuram diversos médicos sem resposta para seu problema. È importante interromper esse ciclo vicioso que promove dor, sofrimento e incapacidade funcional. O seu não reconhecimento pode desencadear ou agravar quadros de ansiedade e depressão, podendo levar paciente ao isolamento social, e a baixa estima, o que agrava ainda mais o quadro clinico. O Reumatologista tem um papel muito importante no manejo desta enfermidade, em razão de sua formação e a sua experiência no tratamento das dores músculo-esqueléticas crônicas.

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